TRECHOS DE UM CONTO AMAZÔNICO NA DESGLOBALIZAÇÃO.

Em situações normais, e sobretudo no verão Amazônico, não costumo perder meu tempo escrevendo sobre futilidades. Mas ontem uma leitora disse que não se interessava pela minha literatura porque eu nunca apareci no programa do Jô Soares e então eu pensei escrever sobre futilidades. O poeta Max Caracol estava do meu lado e riu junto comigo. Pensamos que era brincadeira, mas não era. A leitora disse isto, torceu o nariz, abriu as pernas, entrou no seu carro importado e partiu.

Fui criado por duas mães e nunca apanhei de nenhuma delas. Então posso escrever tranquilamente sobre a leitora sem o risco de ser confundido com algum escritor que apanhou da mãe, ficou traumatizado e virou machista. Não é este o caso. As mulheres quase sempre foram generosas comigo. E também já havia decidido não escrever nada, respeitar a opinião da leitora, o mundo é assim mesmo e este é o jeito dela.

Mas duas semanas depois eu a encontrei novamente e ela repetiu a história do Jô Soares. Então já não posso deixar de escrever. É a vida pedindo para ser escrita e, neste caso, é melhor respeitar a escolha do destino.

Desta vez ela me encontrou em um supermercado e quando me viu não se conteve: “O senhor de novo?”

Eu respondi:

“Oi, mana. A senhora está bem, querida?

“Não sou nem sua leitora, quanto mais sua irmã… Já tentou marcar uma entrevista no Programa do Jô?”

“Eu só desejo saber se a senhora está bem… Está?”

“Estou ótima… Talvez depois que o Jô lhe entrevistar eu possa ser sua leitora, mas sua irmã não dá para ser porque eu sou bonita…

“E exibida também…”

“O que o senhor disse?”

“Eu não disse nada. Quem disse foi aquele amigo poeta que estava comigo na outra vez que nos encontramos…

“O que ele disse?”

“Que a senhora era bonita, mas era muito exibida…

“O senhor não tem respeito, não?”

“Eu tenho. Quem não tem é o poeta Max Caracol… Por que ele tem que olhar para sua beleza, não é mesmo, senhora?”

“Mas é o senhor que está me contando. O senhor não devia falar estas coisas para quem não conhece. Isto também é falta de respeito…”

“A senhora também não me conhece pessoalmente e disse sua opinião sobre minha literatura que, aliás, a senhora também não conhece… A senhora disse o que quis e eu não me senti desrespeitado…”

“O que mais seu amigo falou de mim?”

“É melhor eu não dizer…”

“Diga”.

“Ele disse que a senhora é uma destas novas personagens sociais formatadas pela indústria cultural. Embora rica e bonita, a senhora teve o gosto deformado para consumir o produto e não a arte. Ele disse que a senhora não gosta da arte. Gosta do artefato. Não compra o estilo. Compra a mercadoria. Mas foi ele quem disse. Ele nem conhece a senhora, como pode supor uma coisa desta? Não ligue para isto não… “

“O senhor também pensa assim?”

“Eu?!… Quem sou eu senhora… Eu não penso nada e foi a senhora que pediu para eu contar o que o Max falou… Nem devia ter contado…”

“Eu acho que o senhor é que pensa isto de mim e está colocando a culpa no seu amigo…”

“Que é isto senhora? De jeito nenhum… O Max é assim mesmo… E a senhora foi dizer que a obra dele não lhe interessava porque ele nunca foi entrevistado pelo Jô Soares, então ele se deu o direito de formar uma opinião sobre a senhora…”

“Mas eu não falei para ele… Eu falei para o senhor… Falei da sua obra…”

“Pois é… Mas ele é muito meu amigo e também é escritor e também nunca foi entrevistado pelo Jô Soares… O que a senhora disse para mim também serviu para ele… A senhora não acha?”

“O senhor já ganhou algum prêmio?”

“Muitos. Mas não prêmio concedido por editoras. Ganhei prêmios disputados em editais públicos. Não pertenço a nenhuma confraria.”

“E o Max? ”

“O Max detesta condecorações. Ele afirma que prêmio é um selo de qualidade que as editoras concedem aos escritores que trabalham para elas com a finalidade de agregar valor ao produto. É um carimbo, segundo ele. Uma forma dissimulada de propaganda…O Max é terrível… E ele diz que tem muito leitor que acredita em propaganda enganosa porque, na verdade, é mais consumidor que leitor… A senhora concorda com ele?”

“Eu acho que o senhor está querendo dizer que eu sou uma leitora de mau-gosto iludida por propaganda enganosa mas não tem coragem e coloca a culpa no seu amigo…”.

“Que é isto, senhora. Não há culpa em emitir opiniões. A senhora disse o motivo pelo qual minha obra não lhe interessava. Não é uma opinião? A senhora não a expressou? Que mal há nisto? Se eu fosse o autor de opiniões geniais como a do Max, por que eu não haveria de assumi-las como minha?”

“Por que então esta sua cara de sem-vergonha? ”

”Que cara? É feia assim mesmo…”

“Cara de ironia… Como se estivesse mentindo… Colocando a culpa no seu amigo…”

“Não estou mentindo… Por que faria isto?”

“Sou uma leitora contemporânea, chic, globalizada… Pop-cult… O senhor acha que sua opinião ou a do seu amigo vai mudar o que penso? Leio em tablet, smartfone, celular… Compreendeu? E escritor para mim tem ser entrevistado pelo Jô ou não é escritor, se é isto que o senhor quer saber…”

“A senhora disse isto na primeira vez que me encontrou, mas não fui eu quem perguntou…”

“Esqueça… A fila está demorando, não é? …Só tem um caixa… Pode isto em um supermercado deste tamanho? Na televisão eles dizem que o atendimento é de primeira…”

“Propaganda enganosa…”

“Lá vem o senhor. Vai começar de novo?”

“Que é isto… De modo algum… Estou falando do supermercado… Acho que não vou esperar esta fila… Nem vou pedir para ser entrevistado no Jô Soares…”

“Azar o seu… Vai continuar sem esta leitora”

“Estou brincado…”

“Diga ao Max que mando lembranças…”

“Ele vai gostar disto.”

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Uma mulher, mesmo equivocada, mesmo agressiva, continua sendo uma mulher e precisa ser desarmada com elegância. Sou daqueles que acreditam que o homem se enfraquece quando pensa como homem e que a mulher se enfraquece quando pensa como mulher. Acredito que ambos se fortalecem e aprendem a se respeitar quando ambos pensam e se tratam como seres humanos.

Não preciso da opinião dela para ser escritor, nem ela da minha opinião para ser leitora.

Não sou daqueles escritores que frequentam programas televisivos, nem afirmo minha condição de escritor amazonense divulgando releases com fotos emolduradas por palmeiras na piscina do luxuoso Tropical Hotel.

Moro dentro da floresta e a vivo por dentro. Também sou acostumado a banhar-me nas águas do Rio Negro. Os animais me conhecem. Jamais fui atacado. Nem na mata nem na água. A floresta e o Rio Negro conhecem seus filhos. Isto não me garante nenhuma vantagem como escritor. Pelo contrário. Quem deseja ler uma literatura indígena, cabocla, popular e proletária em um Brasil caricato e ocidental?

Não sei porque o Max Caracol acreditou que a calcinha da leitora era importada. O carro eu sei que é. Ela própria disse que era uma leitora globalizada e certamente deve ser globalizada em tudo. É uma mulher de opinião firme. Por que seria globalizada como leitora e não o seria em outros aspectos?

Não sei o motivo de retornar ao início. Estas coisas são assim e a literatura também.

Espero que ela e o Max Caracol nunca se encontrem. Vai saber que a opinião é minha. Mas ela entendeu. Ambos entendemos.

Do E-book Manaus Açu _ Contos Amazônicos  na Desglobalização.

Editora Coleção de Rua