SAGA  MUNDURUKU   (UM CONTO AMAZÔNICO NA DESGLOBALIZAÇÃO)

Após uma excursão pelo Brasil, nossa peça teatral Saga Munduruku estreará esta noite aqui em Manaus. Meus amigos me informaram que o reconhecimento nacional do espetáculo teria mudado a relação da província comigo. Eu também teria que mudar minha relação com a província. Eles me garantiram que nesta noite a calçada do Teatro Amazonas se transformará em uma Calçada da Fama e eu serei tratado como uma celebridade: fãs descabeladas gritarão meu nome, leitoras me beijarão, paparazzi me fotografarão para postarem selfies, calcinhas serão jogadas em meu rosto, televisões tentarão me entrevistar, uma limusine será colocada a minha disposição, fogos de artifício anunciarão minha chegada, uma farra estará preparada para o final da noite e todos os preconceitos contra a cultura indígena terão ,enfim, um fim.

“Você tem que estar preparado para isto”, insistiam os amigos.

 Acreditei que isto talvez tivesse um sentido. Mas conhecendo Manaus, resolvi não ir à estreia. E se meus amigos estiverem certos? Como eu farei?

Prefiro ficar sozinho aqui neste pequeno apartamento alugado no centro da cidade, na rua onde nasci e num calor do cacete. Não faz sentido a civilização do cimento em uma região de clima equatorial. Não moro na área central de Manaus. Porém, quando estou envolvido com algum espetáculo, geralmente alugo uma jaula de cimento no centro da cidade. Ganho tempo e gasto menos. É um cálculo de pobre. E nestas horas o corpo ferve. O sangue ferve. E não adianta pintar a jaula de verde. Minha experiência teatral faz parte da reinvenção da cidade pelos povos indígenas que a fundaram, que a perderam e que a humanizam novamente. Talvez uma arte cênica ritualística dos indígenas na cidade e no presente possa ter reinventado o significado de Manaus e o sentido do teatro na Amazônia. Talvez uma arte ritualística florestal em um palco de teatro urbano estabeleça um novo significado para as coisas. Trabalho com os povos de várias tradições… Ganhamos muitos prêmios nacionais e esta noite de estreia da Saga talvez faça a cidade e o Teatro Amazonas se olharem no espelho.

Contudo, eu cismei. Manaus matou os Manaú... E se eu fosse o canibalizado urbano da vez? Pensei na estreia… Calcinhas jogadas freneticamente em meu rosto? Manaus me tratando como celebridade? E se as previsões de meus amigos estiverem certas?

Começo a escutar a britadeira de uma empresa multinacional das águas britando a calçada do apartamento e começo a pensar que meus amigos podem estar enganados. É madrugada, não há problemas na tubulação, não os chamei, o horário é inadequado, não me avisaram nada, não há urgência e não faz nenhum sentido.

Eu salto da cama, desço a escada, recebo a ordem de serviço, seguro na britadeira, visto a roupa de curupira, atravesso Manaus como uma bola de fogo veloz, estaciono no quarto de um executivo estrangeiro e lhe mostro a ordem de serviço assinada por ele.

“É falsa”, ele me diz, “foi um engano”.

Ele treme o corpo, baixa a cabeça e pede para a mulher vestir a roupa. Devolvo a britadeira para ele, encaro-o nos olhos e pego de volta a ordem de serviço. Outra bola de fogo atravessa Manaus, chego em casa, tiro a roupa de curupira e deito na cama, retornando ao lugar onde comecei a narrativa.

Meus amigos telefonam e me informam que a estreia foi um sucesso. Os artistas Munduruku, os Saterê-Maué e todo grupo teatral estão comemorando no Bar do Armando, próximo ao Teatro. Os indígenas estão cantando suas músicas, tocando seus instrumentos e dançando suas danças no centro da cidade que há trezentos anos expulsou seus parentes. Levaram a peça do palco para a rua. Manaus está escutando novamente o som que ouvia antes da invasão ibérica. Meus amigos estão felizes por mim e estão cercados de mulheres. Talvez eles estivessem certos.

Desligo o telefone, sorrio e penso no ódio que vi nos olhos do executivo quando o encarei. Porque a britadeira em minha porta?

Que descortesia o povo de Manaus pode ter feito a esta multinacional para que alguém da empresa tente perturbar o sossego de um escritor torto da província?

Compreendo perfeitamente o que significa a presença desta empresa em minha cidade, banhada pela água doce do Rio Negro.

Mas o que o teatro do indígena na cidade e no presente tem com isto?

Por que eu?

Vou até a sacada e percebo que a britadeira não voltou.

A madrugada do verão Amazônico está estrelada e fresca.

Uma vizinha me vê e caminha até a calçada do sobrado. Ela para, sorri e pede um autógrafo:

“Autografa este cartaz da Saga. Pode ser? “

Eu sorrio, desço a escada, recebo um beijo e assino meu nome no cartaz.

Ela agradece e pede um segundo autógrafo:

            “Autografa meu short?

E agora?

Melhor não, eu digo.

“Então me beija… beija que eu vou embora… Beija? “

Beijo seu rosto e penso nos meus amigos. Talvez eles estivessem com a razão. E se eu agora for uma celebridade? E se Manaus tiver decidido ser carinhosa comigo? Mudou o escritor ou mudou a cidade? Esta cidade não existe.

O termômetro no Boulevard Amazonas registra 25°. Umidade relativa do ar no nível equatorial.

Não consigo odiar.

Não nasci para ser estrela.

Creio que por isto já possa dormir!

 

 

Do e-book Manaus Açu _ Contos Amazônicos  na Desglobalização

Editora Coleção de Rua